Artículo

Breve homenagem a Augusto Thompson

Fernanda Freixinho

No último dia 18 de maio, o Brasil perdeu um de seus maiores advogados criminalistas, o baiano-carioca Augusto Thompson. Grande expressão da criminologia também se destacou no magistério que exerceu com tanto zelo e dedicação durante muitos anos à frente das cadeiras de Criminologia e Direito Penal na Universidade Candido Mendes.

Aqueles que tiveram o privilégio de serem brindados com a companhia ímpar desse amigo querido sofreram uma perda irreparável, assim como o Direito e o conceito de liberdade tão bem expressado por este que sobre todas as coisas foi um libertário.

Sua veia poética, sagacidade e espontaneidade sempre estiveram presentes em sua vida e obra. Era um mestre em construir e depois desconstruir tudo de maneira a deixar muitas vezes perplexo até o ouvinte mais experiente.

Como professor atencioso sabia o nome e sobrenome de todos os alunos de cor e mesmo muitos anos depois, quando os encontrava ainda cumprimentava-os pelo nome e lembrava de detalhes da participação do aluno no curso.

Em sua obra inédita sobre a devassa de Tiradentes, reescreveu a história do Brasil em um de seus principais pontos, deixando a mostra os equívocos da historiografia e versão oficial. Toda a sua pesquisa foi feita mergulhando direto na fonte primária, os próprios autos da devassa.

Na Criminologia, em sua consagrada obra Quem são os criminosos, ressaltou com pioneirismo que o crime era um ente político e mostrou-se contrário as ideias dominantes. Foi sobretudo um jurista “camaleão” que estava sempre mudando, aprimorando ou até mesmo abandonando suas próprias ideias.

Como rebelde que sempre foi enxergou a rebeldia por trás do crime “Penso que não tenho uma visão paternalista dos dominados - para mim, o criminoso sempre expressa uma rebeldia ao sistema”.

Embora pudesse usar e abusar do vernáculo, da sociologia, optou por utilizar um linguajar que pudesse ser compreendido e ter eco no foro “Falo a língua de um causídico, denuncio as instituições jurídicas, protesto, esperneio, registro a minha indignação”.

O substrato político de tudo até hoje ignorado por muitos já era há muito ressaltado por Thompson “Quem faz a lei (Legislativo), quem persegue o delinquente (Executivo) e quem o condena (Judiciário) são agentes do poder político. Crime e criminoso possuem um único substrato real: o político. O jurídico, o moral, o natural, o científico constituem apenas continentes a revestir e a esconder aquele conteúdo nuclear”.

Acredito que uma frase de Foucault citada por ele resuma tudo “O poder político não está ausente do saber; ele é tramado com o saber”.

Penitenciarista teórico e prático, tendo sido Diretor-Geral do Sistema Penitenciário do Rio de Janeiro e Presidente do Conselho Penitenciário denunciou suas mazelas na célebre obra A questão penitenciária.

Magnifico orador encantou mais de uma geração e muitos de seus discursos ainda ecoam nos Tribunais, nos corredores do foro.

Sua paixão pela advocacia e liberdade não arrefeceu com o decurso do tempo ao contrário, combateu incansavelmente até os últimos minutos.

Alcançou grande fama com as sensacionais defesas feitas no júri, onde se sentia em casa.

Algumas de suas defesas ficarão para a posteridade com as publicações de alegações orais e escritas nos tomos da obra Advogado de Defesa, onde certamente as gerações futuras, com um grau maior de isenção poderão constatar o poder de seu discurso.

Certamente sua saída do cenário jurídico brasileiro deixará tudo muito mais silente, oculto, impenetrável. Aos amigos fica o consolo dos dias agradáveis passados na sua companhia e suas preciosas lições e ensinamentos.

Termino esse breve ensaio com Genet “Só há alguns pontos luminosos na vida de um homem. Tudo o mais é cinza”. Na vida desse militante combativo certamente haviam muitos pontos luminosos que com a mais plena certeza permanecerão nas mentes dos colegas, amigos, discípulos e admiradores ferrenhos.

topo